HONRAR PAI E MAE

30-09-2010 00:00

 

 

HONRAR PAI E MAE

Se as relações familiares não fossem intrinseca­mente complicadas, não existiria o mandamento "Hon­rarás pai e mãe". Comentário de grande sabedoria. Assunto inesgotável. Como educar, como cuidar neste mundo maravilhoso e tresloucado, com tanta sedução e tanta informação - um mundo no qual, sobretudo na juventude, nem sempre há o necessário discernimento para escolher bem?

Saber distinguir o melhor do pior, ser capaz de observar e argumentar, são o melhor legado que família e es­cola podem dar. Na família, fica abai­xo só do afeto e da segurança emo­cional. Na escola, importa mais do que o acúmulo de informações e o espaço das brincadeiras, num siste­ma que aprendeu erroneamente que se deve ensinar como se o aluno não tivesse de aprender. Fora disso, meus caros, não há salvação. Isso e profes­sores supervalorizados e bem pagos, escola para todos - não mais mi­lhões de crianças e jovens em casas cujo pátio é barro misturado a esgo­to, ou na rua, com o crack e a prosti­tuição. Um ensino que dê muito e exija bastante: ou caímos na farra e no despreparo para a vida, que inclui graves decisões pessoais e um mer­cado de trabalho cruel.

Bem antes da escola vem o funda­mental, o ambiente em casa, que mar­ca o indivíduo pelo resto de sua jor­nada. Se esse ambiente for positivo, amoroso, a criança acreditará que amor e harmonia são possíveis, que ela pode ter e construir isso, e fará nesse sentido - suas futuras escolhas pessoais. Se o clima for de ressentimento, frieza, mágoas ocultas e desejos negativos, o chão por onde o indivíduo vai caminhar será esburacado. Mais irá tropeçar, mais irá quebrar a cara e escolher para si mesmo o pior.

Dificuldades familiares não têm a ver só com o na­tural conflito de gerações, mas também com a atitude geral dos pais. Eles têm entre si uma relação de lealdade, carinho, alegria? São realmente interessados, ten­tam assumir suas responsabilidades grandes e difíceis? Foi-se o patriarcado, em que havia regras rígidas. Eu não quereria estar na pele cios infratores de então, os filhos que ousavam discordar. Em lugar da anterior ri­gidez e distância, estabeleceu-se a alegre bagunça, com mais demonstrações de afeto, mais liberdade, mais res­peito pelas individualidades - muitas vezes com resul­tados dramáticos. Lembro a frase que já escrevi nesta coluna, do psicólogo que me revelou: "A maior parte dos jovens perturbados que atendo não tem em casa pai e mãe, tem um gatão e uma gatinha".

Talvez tenham uma mãe que não tro­ca cabeleirejro e academia por horas de afeto corri os filhos, ou um pai que corre atrás do dinheiro necessário pa­ra manter a família acima de suas possibilidades, por ilusão sua ou desejo de status de uma mulher frívola.

Crianças de 11 anos freqüentam festinhas em que rola o inenarrável: onde estão pai e mãe? Adolescentezi­nhos rodam de madrugada pelas ruas, dirigindo bêbados ou drogados: onde estão pai e mãe? Quase crianças passam fins de semana em casas de serra e praia reais ou fictícios, com adultos irresponsáveis ou só entre outras crianças, transando precocemente, drogando-se, engravidando, semean­do infelicidade, culpa, desorientação pela vida afora. Onde estão os pais?

Ter filho é talvez a maior fonte de alegria, mas também é ser res­ponsável, ah sim! Nisso sou rigoro­sa e pouco simpática, eu sei. Esse é o dilema fundamental numa sociedade que prega a liberalidade, o "divirta-se", o "cada um na sua", como num pré­apocalipse. Mais grave ainda num momento em que a honradez de figuras pú­blicas (que deveriam ser nossos guias e modelos) é quase uma extravagância. Pais bonzinhos são tão danosos quan­to pais indiferentes: o amor não se compra com presentes, nem permitindo tudo, nem fingindo não saber ou não que­rendo saber, muito menos desviando o olhar quando ele devia estar vigilante. Quem ama cuida: velho princípio inegável, incontornável e imortal, tantas vezes violado.

"Pais bonzinhos são tão danosos quanto pais indiferentes: o amor nao se compra com

presentes, nem fingindo não saber, desviando o olhar quando ele devia estar vigilante"

Lya Luft

18 11 de junho, 2008 veja


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